terça-feira, 22 de março de 2011

A HISTÓRIA FEITA À PARTIR DE UMA VISÃO REFORMADA pela Profa. Jaquelini Souza


INTRODUÇÃO

Segundo Bloch a História é a ciência dos homens no tempo, (BLOCH,2002: 55). Esta, que pode ser considerada a mais humana das humanas, só ganhou status de ciência apenas no século XIX, e de lá para cá historiadores e filósofos da história tentam compreendê-la e criar novos métodos que além de facilitar seu estudo, sejam mais completos para as novas exigências epistemológicas.

Pensando nisto, um grupo de cientistas sociais, dentre eles historiadores é lógico, da Universidade Livre de Amsterdã vem desenvolvendo uma nova maneira de pensar a História, através de uma cosmovisão reformada. Um grupo de estudantes do curso de Mestrado em Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie aceitou o desafio de trazer essas idéias para o Brasil, e não apenas de trazer, mas também de produzir.

O TEMPO

Já dissemos anteriormente o conceito criado pela Escola dos Annales, tomando este conceito como pressuposto para o início de nossa reflexão podemos inferir que a dimensão que determina a História como ciência é o tempo, sem o homem que a produza e o tempo que permite que seja produzida não existe História como ciência.

Para a cosmovisão reformada a Bíblia é um documento histórico com inspiração divina, portanto nela não encontram-se erros. Como cientistas não podemos entrar na discussão se isso é verdade ou não, mas se criamos teorias e métodos a partir de pressupostos escritos por homens, que admitimos que erram, mesmo que a Bíblia seja acusada de ter erros ainda está autorizada a ser um pressuposto científico. Sendo assim usaremos várias de suas passagens, e a primeira delas é:

“No princípio criou Deus os céus e a terra.” Gn 1:1 é interessante notar que logo no primeiro versículo da Bíblia vemos a criação da dimensão existencial da História, o tempo, os pensadores reformados defendem que Deus criou o tempo, logicamente não está preso a ele e é por essa razão que não podemos estudar Deus pela História, porque simplesmente não podemos colocá-LO no tempo, a não ser a Segunda Pessoa da Trindade. Só podemos estudar historicamente os 33 anos que Jesus esteve como homem na Terra.

Quando digo que a História é a ciências dos homens no tempo, a que tipo de tempo estou me referindo? A escola dos Annales busca a chamada História Total, não é o estudo de tudo na história, mas é o estudo de todas as dimensões que influenciam o homem em seus atos. Bloch combateu incessantemente o reducionismo científico, sendo a Escola dos Annales a primeira a propor a interdisciplinaridade, em Apologia da História ele diz:

“Ora, homo religiosus, homo oeconomicus, homo politicus, toda essa ladainha de homens em us, cuja lista poderíamos estender à vontade, evitemos tomá-los por outra coisa do que na verdade são: fantasmas cômodos, com a condição de não se tornarem um estorvo. O único ser de carne e osso é o homem, sem mais, que reúne ao mesmo tempo tudo isso. (BLOCH, 2002: 132)

Este tempo é um recorte, por exemplo, quero entender os motivos que levaram a missionária americana Mary Chamberlain a criar uma escolinha que ensinasse tanto a filhos de barões quanto de escravos no Brasil Império, então preciso entender o seu tempo, ou seja sua economia, religião, sociedade e por aí vai, compreender a totalidade para fazer uma História Total.

A Bíblia diz que: “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu.”Ec 3:1 esta talvez seja a frase mais histórica de toda a Bíblia, o que significa tempo determinado, significa que nada natural e humano pode acontecer fora do tempo, e do seu tempo.

Nos versículos que se seguem as Escrituras deixam bem claro que não se pode nascer na hora da morte, esse versículo tem implicações bem mais sérias, se levarmos o mesmo princípio para as sociedades, quando a própria Bíblia diz que há tempo de guerra e tempo de paz, podemos afirmar que para que um fato histórico aconteça é necessário que uma série de condições colidam para que permita que o fato ecloda.

Isso é a mesma coisa que perguntar por que um fato acontece em um determinado tempo e não em outro, por exemplo por que a Reforma deu certo com Lutero e Calvino e não com Wicliff e Huss? É só estudar os séculos XIII e XVI para saber. O mais interessante é que as escrituras começam a indagar sobre o tempo com indivíduos e termina com sociedades, mais precisamente nascer e morrer e guerra e paz.

O HOMEM

Na definição de Bloch o tempo é a dimensão existencial da História e o seu produtor é o homem. É aqui que os aparentes conflitos entre historiadores cristãos e ateus eclodem, se o homem é o sujeito da História onde fica Deus, e se Deus pode intervir na História onde fica o homem?

Em Pv 16: 1 encontramos a seguinte afirmação “O coração do homem pode fazer planos, mas a resposta certa dos lábios vem do Senhor.” Quando estudamos a dimensão tempo afirmamos que Deus não pode ser estudado pela História, com exceção de Jesus em seus 33 anos como homem, porque Deus não é preso ao tempo. Antes de nos aprofundarmos nesse assunto, vamos começar esse raciocínio com a seguinte indagação:

O homem controla a História? Eu creio que não, porque para poder controlar a História o homem precisa controlar sua dimensão existencial: o tempo, e ao afirmar que a História é a ciência que estuda os homens no tempo, estou afirmando que o homem é preso ao tempo, e é por justamente ser preso ao tempo que eu posso estudá-lo historicamente. Portanto o homem não controla a História.

Essa afirmação leva a outra implicação, se o homem é o sujeito da história, porém não a controla, então a História faz sentido? Não entraremos nessa longa discussão por uma simples razão, a maioria dos historiadores, com exceção dos marxistas ortodoxos e dos pós-modernos, ou seja todas as outras escolas, admitem que a História faz sentido, ou seja tem uma lógica, mesmo que a não compreenda.

Então como a história faz sentido se o seu produtor não a controla, é aqui onde justamente Pv 16:1 é crucial, a História faz sentido porque existe um ser que não está preso ao tempo que a controla, ou tem o poder de controlá-la se quiser. Como presbiteriana acredito que esse ser é o Deus Cristão, como historiadora estou tentando mostrar que nenhum conceito da Escola dos Annales nega isso, apesar de não afirmar, para que a partir daí possamos criar uma visão reformada da História aqui no Brasil através do mestrado de Ciências da Religião do Mackenzie.

Quero fazer a seguinte ilustração, imaginemos a História como uma fábrica de sapatos cuja filosofia é fordista. Os trabalhadores são responsáveis pela fabricação do sapato, cada um com a sua função, se sair falhas ele será responsabilizado e sofrerá as conseqüências disso, ele participou da produção, ele fez o sapato, porém não a controlou.

O homem não pode controlar o tempo não apenas porque está preso a ele, mas porque também não pode controlar todas as dimensões que o cercam. Imagine uma Guerra, se cada general pudesse controlar o resultado final, quem venceria a guerra? Além disso há fatos na História que simplesmente não tem explicação objetiva e sim subjetiva, como explicar que um gênio militar como Napoleão invadiria o maior país da Europa no inverno, onde as temperaturas podem chegar a 50 negativos, se não por sua vaidade que o cegou e passou a acreditar que era invencível.

Outra razão, não conseguimos estudar história por fatos isolados, para entender a Reforma preciso entender a Idade Média, e para entender a Idade Média para entender a Reforma preciso entender as Causas do Fim do Império Romano e assim vai. Percebemos que os fatos históricos estão interligados e se existe uma interligação entre eles podemos afirmar então que existe uma lógica nisso tudo.

Tomemos como exemplo a Batalha de 1588 entre a Espanha, Inglaterra e Holanda, a maior marinha do maior Império do mundo, a Espanha, que jamais perdera uma batalha, conhecida como a Invencível Armada versus barcos ingleses, que mal haviam se constituído como nação e holandeses, que estavam em plena guerra pela a independência contra essa mesma Espanha. Quem venceu?

Na História não existe se, ou é ou não é, mas vamos admitir que a Espanha tivesse vencido, Felipe II esmagaria a nascente Inglaterra e finalmente acabaria com a Guerra de Independência Holandesa, implantaria a inquisição e o protestantismo morreria nesses dois países no nascedouro.

Pelo lado inglês a Igreja Presbiteriana não teria se desenvolvido e provavelmente puritanos não teriam migrado para os EUA no famoso May Flower e não seria organizada a Presbiterian Church of United States, esta portanto não teria criado o Princeton College, onde Ashbell Green Simoton jamais poderia ter tido sua experiência religiosa ao qual entendeu que recebeu um chamado de Deus para Missões, assim como outros missionários presbiterianos como George e Mary Chamberlain, eles jamais teriam vindo ao Brasil e a Igreja Presbiteriana do Brasil não existiria assim como Mary Chamberlain não criaria a Escola Americana o que hoje é o Mackenzie.

Pelo lado holandês a Igreja Reformada Holandesa seria esmagada e no século XIX Abrahan Kuyper não teria também a sua experiência religiosa e jamais sentiria o desejo de organizar uma instituição educacional com a intenção de formar uma nova elite reformada na Holanda, assim jamais seria criada a Universidade Livre de Amsterdã, onde não seria possível que no início do séc.XXI um grupo de cientistas desta universidade se reunisse e criassem uma teoria que visse a história com olhos reformados.

Portanto eu jamais me tornaria presbiteriana, jamais estudaria no Mackenzie e jamais entraria em contato com essas idéias e jamais escreveria isso. Se isso não for um exemplo de que os fatos históricos estão interligados em uma lógica histórica e que a História faz sentido eu não sei mais o que poderia ser.

A HISTÓRIA

É lógico que ao admitir que a História faz sentido surge a natural indagação, que sentido é esse, qual é o sentido da história? Uma pergunta mais filosófica que histórica. Eric Hobsbawn em Sobre História admite que o historiador pode até fazer previsões tendo como base exemplos históricos e análises do presente, mas o mesmo não é um Profeta.

Como Reformados não podemos cometer o mesmo erro que os marxistas ortodoxos que tanto combatemos ao defender uma história determinista e escatológica. Tentar provar que estamos vivendo os fins dos tempos através de análises pseudo-históricas é um erro tremendo por uma simples razão, só conseguimos abstrair um determinado período de tempo quando estamos um pouco distante dele, e também não podemos arranjar uma desculpa que estamos fazendo história do tempo presente que é uma coisa completamente diferente. Portanto deixemos essa indagação para os filósofos.

Está lançada a pedra fundamental, a estratégia é provar que nenhum conceito da Escola dos Annales, uma escola reconhecida como histórica e muito respeitada não é contraditória com os conceitos bíblicos acerca da História e a partir daí tentar criar uma visão reformada da História. É possível fazermos isso, afinal de contas foi o próprio Bloch que disse:

“O cristianismo é uma religião de historiador. Outros sistemas religiosos fundaram suas crenças e seus ritos sobre uma mitologia praticamente exterior ao tempo humano; como Livros Sagrados, os cristãos tem livros de história, e suas liturgias comemoram, com os episódios da vida terrestre de um Deus, os faustos da Igreja e dos santos. Histórico, o cristianismo o é ainda de outra maneira, talvez mais profunda: colocado entre a Queda e o Juízo, o destino da humanidade, cada ‘peregrinação’ particular, apresenta, por sua vez, o reflexo; é nessa duração, portanto dentro da história, que se desenrola, eixo central de toda meditação cristã, o grande drama do Pecado e da Redenção. (BLOCH, 2002 : 42)



Se a nossa fé é uma fé de historiador, então estamos autorizados a fazer História através dela. Em A Escrita da História Michel De Certeau defendeu que a História é uma produção resultante de uma práxis que tenta compreender a realidade, esta produção além de estar carrega com as ideologias de quem a produziu, está comprometida com o lugar de produção.

“Toda pesquisa historiográfica se articula com um lugar de produção sócio-econômico, político e cultural. Implica um meio de elaboração que circunscrito por determinações próprias: uma profissão liberal, um posto de observação ou de ensino, uma categoria de letrados, etc. Ele está, pois, submetida a imposições, ligada a privilégios, enraizada em uma particularidade. É em função deste lugar que se instauram os métodos, que se delineia uma topografia de interesses, que os documentos e as questões, que lhes serão propostas, se organizam.” (DE CERTEAU, 2010 : 66 – 67)

O grande Michel De Certeau admitiu que toda produção historiográfica leva consigo as marcas do seu lugar de produção, sem que com isso perda sua objetividade, portanto se dois cientistas da curso de ciências da religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie quiserem produzir ciência, neste caso história, com olhos reformados, estão nada mais e nada menos cumprindo as palavras do grande mestre francês.

QUAL SERIA O CONCEITO DE HISTÓRIA EM UMA VISÃO REFORMADA?

Talvez esse diagrama ajude a compreender:



O Homem está no centro porque são as ações dele que estudamos para entender a História, o envolvendo completamente está a dimensão existencial da História, o tempo, e envolvendo completamente o homem e o tempo, Deus, o Deus Cristão, criador tanto do homem como do tempo. O homem continua sendo o produtor da História, mas é Deus que dá sentido a ela.

Em História e Memória, o grande historiador do medievo, Jacques Le Goff afirmou que a palavra história vem do “... grego histor ‘testemunha’ no sentido de ‘aquele que vê’...” (LE GOFF, 1996 : 17) a História seria então a maior de todas as testemunhas, porque ela seria a testemunha dos atos humanos que colidem para a realização da lógica divina.

Teríamos enfim a seguinte definição de História vista por olhos reformados, que chamaremos de História Reformada: a ciência que estuda as ações humanas no tempo para perceber uma lógica que só pode ser explicada pela existência de um ser superior ao tempo, que pela fé acreditamos ser o Deus Cristão.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BLOCH, Marc. Apologia da História ou o ofício de historiador. Editora Jorge Zahar. Rio de Janeiro – RJ. 2001

DE CERTEAU. A Escrita Da História. Editora Forense Universitária. 2ª Ed. Rio de Janeiro – RJ, 2010

LE GOFF, Jacques. História e Memória. Editora da UNICAMP. 4ª Ed. Campinas – SP, 1996


Prof. Jaquelini Souza
Formada em História pela Universidade Regional do Carriri/CE e Mestrando em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

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