“Um governo que fosse fundado sobre o princípio da benevolência para com o povo — tal o do pai para com os seus filhos, quer dizer, um governo paternal —, onde, por consequência, os sujeitos, tais filhos menores, incapazes de decidir acerca do que lhes é verdadeiramente útil ou nocivo, são obrigados a comportar-se de um modo unicamente passivo, a fim de esperar, apenas do juízo do chefe do Estado, a maneira como devem ser felizes, e unicamente da sua bondade que ele o queira igualmente — um tal governo, digo, é o maior despotismo que se pode conceber.”
--- Kant ["Teoria e Prática"]

A Direita [neoliberal] portuguesa é uma Direita alienada, manietada e controlada pela Esquerda.
Depois da queda do muro de Berlim, a Europa foi, digamos, "kantiana" por um período aproximado de dez anos; e devido à reconversão e à reciclagem ideológica do marxismo clássico em neomarxismo [que é uma mescla com o marxismo cultural que deu no chamado “politicamente correcto”], por um lado, e por outro lado, devido ao desaparecimento — ou ao afastamento da vida política — dos antigos lideres europeus da Direita, a Europa retrocedeu a Hobbes.
Este retrocesso civilizacional e cultural coincidiu com a entrada do Euro. A Europa assiste hoje claramente a um retrocesso civilizacional por acção da Esquerda, por um lado, e pela omissão de uma Direita controlada pelo politicamente correcto e totalmente submetida a uma visão economicista da realidade [ a Direita actual só vê economia; toda a realidade é reduzida à economia]. Chamemos a esta nova Direita de “neoliberal”.
Quando a Direita neoliberal reduz toda a realidade à economia [embora, muitas vezes, não o confesse], cede para a Esquerda neomarxista o controlo de todos os outros aspectos da política, como por exemplo a ética, os costumes, ou a cultura antropológica. É neste sentido que a Direita neoliberal é controlada pelo politicamente correcto [é controlada pela Esquerda!], porque abdica de uma posição em praticamente todas as áreas da política com excepção dos aspectos económicos.
Não é por acaso que uma esmagadora maioria dos blogues da Direita neoliberal portuguesa só fala praticamente de economia. Não é por acaso que as acções das engenharias sociais neomarxistas [ou politicamente correctas] são caladas por uma grande parte dos blogues neoliberais portugueses: a Direita [neoliberal] portuguesa é uma Direita alienada, manietada e controlada pela Esquerda.
A Direita neoliberal acredita, por exemplo, que é possível separar a cultura antropológica, por um lado, da economia, por outro lado; e acredita que a cultura antropológica pode ser determinada pela definição de determinados padrões económicos [a influência do Positivismo e da dialéctica de Hegel na cultura intelectual] — reflecte uma espécie de retorno ideológico aos fisiocratas e a Boisguilbert, que se convenceram que nada mais existe no mundo senão a economia.

Quando Kant falava do “maior governo despótico possível”, não se referia à economia: referia-se à ética. Para Kant, é a ética que define não só a forma como se faz a política, mas também a forma como se conduz uma economia. Em contraponto, Hobbes, no seu “Leviatão”, defendeu praticamente o oposto de Kant.
Hobbes defendeu a ideia segundo a qual o valor das coisas não é intrínseco — por exemplo, segundo Hobbes, a justiça não tem valor em si mesma: pelo contrário, segundo Hobbes, o valor das coisas [por exemplo, o valor da justiça] depende exclusivamente da sua aptidão para assegurar a conservação do indivíduo, produzindo nele paixões agradáveis e a felicidade; segundo Hobbes, os objectos são bons exclusivamente porque são úteis, e são, apenas e só, desejados por esta razão. E por isso, Hobbes defendeu o absolutismo de Estado e uma governança despótica que, alegadamente, trouxesse a felicidade aos indivíduos, e segundo o primado do instinto e das paixões providos pelo Estado do Leviatão. É o que se passa hoje, grosso modo, na União Europeia.
Como vemos, temos hoje um Direita em Portugal que pauta o seu ideário, em termos práticos e concretos, pelo absolutismo de Hobbes, embora clame que não o faz [é a Direita neoliberal em estado de negação]. Quando a Direita neoliberal reduz toda a realidade à economia, adopta a visão de Hobbes segundo a qual “o valor das coisas não é intrínseco”, e que o valor das coisas “depende exclusivamente da sua aptidão para assegurar a conservação do indivíduo, produzindo nele paixões agradáveis e a felicidade”.
A Direita neoliberal portuguesa é para-totalitária [uam espécie de ajudante da Esquerda], embora talvez não tenha consciência disso.